As mãos em ação flutuam, ganham vida, acima de tudo,  ganham voz!

CONHEÇA A TRAJETÓRIA DE GUILHERME

Com um silêncio incomum em sala de aula e mãos em movimentos constantes, alunos de Campo Novo do Parecis prestam atenção ao máximo nas explicações do professor Guilherme Ferreira Terres, 28 anos. Ele é surdo desde o nascimento e ministra a disciplina de Libras em escolas do município. O diferencial é que tanto ouvintes, quanto os surdos, interagem com o mestre apenas pela linguagem de sinais, o que intensifica a aprendizagem pela visão dos surdos.

Queria estudar

Nascido e criado em Aripuanã, Guilherme chegou em Campo Novo do Parecis em janeiro de 1998, quando tinha sete anos. A vida acadêmica sempre foi algo que o interessou e confessa que desde pequeno possuía a vontade de ser professor. Em 17 de dezembro de 2016 formou-se em pedagogia, tinha como intérprete Eduardo Gevizier, posteriormente fez pós-graduação, Lato Sensu, em Libras. Voraz por conhecimento, frequentou a escola dos sete aos onze anos sem muitos recursos, visto que não havia atendimento especializado para surdos na época.

Porém, não desistiu. “Guilherme ia para a escola sem muito acesso à informação, mas, no ano de 2002, durante o Governo de Jesur José Cassol, e com a vinda das irmãs católicas das Pequenas Missões para Surdos, o município deu início aos trabalhos com os surdos”, relembra Janete dos Santos Terres, mãe de Guilherme. Porém, além de Cassol, outras pessoas foram tão importantes quanto, diz Janete, mencionado carinhosamente as professoras intérpretes Salete Schantz e Luiza Kaim, a professora Maria do Socorro de Figueiredo Alexandre, a Socorrinho, e Maria Beatriz Ramos Milanezi de Paula, que fora Secretária de Educação durante o governo de Cassol. “Era emocionante quando ele começou a aprender o nome das coisas. Guilherme aprendia algo e quando chegava em casa corria abrir o computador e digitava as palavras aprendidas para ver as figuras ilustrativas”, compartilha Janete enternecida. A fome de aprender de Guilherme era tanta que ele frequentava a escola no período matutino e, no contra turno, participava de outras atividades, promovidas pelo setor auditivo da Secretaria de Educação, na época. Guilherme foi ficando cada vez mais instruído e sua mãe também, pois sabia a necessidade e importância de saber Libras para se comunicar com seu filho e lhe repassar valores nobres, que o tornou a pessoa excepcional que é.     

 

A vida acadêmica

Para que Guilherme pudesse dar continuidade aos seus estudos, Janete e o pai dele, senhor Selvino Ferreira Terres, nunca deixaram de lutar por inclusão. Nesse contexto Claudia Dassow entra em sua vida. “Claudia já tinha tido contato com a Libras. Minha mãe a procurou e pediu ajuda. Um pouco receosa, por medo de não saber libras o suficiente, ela aceitou o desafio de aprender ainda mais. Eu já sabia Libras e com a ajuda de Jorge Fernando Kunsler, amigo surdo e colega de aula, começamos a ensinar Claudia”, recorda Guilherme. Ele acrescenta que, durante anos, ele, sua mãe, Claudia, Salete e outros surdos de Campo Novo do Parecis buscaram especialização em Cuiabá, no Centro de Apoio e Suporte à Inclusão da Educação Especial (Casies), almejando o Atesto, exame de validação para as pessoas que dominam a Libras.

  

A carreira

A carreira Com o Atesto em mãos, Guilherme foi contratado pela Escola Estadual Madre Tarcila, onde atua há 8 anos, como professor instrutor surdo. “Essa escola sempre me recebeu com muito carinho e respeito”, disse Guilherme agradecido. No ano de 2019 Guilherme fez contagem de pontos em seletivo emergencial no município. Porém, após a espera pela chegada de sua vez, foi considerado inapto. “Fiquei muito magoado, mas sabia que não poderia desistir. E estava certo. Nesse ano de 2020, fiz uma prova de seletivo para contratação de professores e agora também trabalho no município como professor e instrutor surdo”, expõe.

Sobre acessibilidade, inclusão

Ao falar sobre Libras, acessibilidade e inclusão, o discurso de Guilherme é simples, direto ao ponto. “Queria ressaltar a falta de intérpretes em locais públicos: hospitais, bancos, policias etc. O surdo precisa de acessibilidade. O surdo precisa ser respeitado. Vamos olhar os surdos com mais carinho”, solicitou Guilherme, ao encerrar sua fala.

Fonte: Ellos In Revista